(315) Plåga
Imaginem a dor. O fim dos fins. A escuridão total que irrompe por todos os meus sentidos.
- Mostra-me o amor, diz Sun Li...
E eu mostrei o que conhecia...
det får framtiden utvisa
(Para ler de baixo para cima)
I'd tell all my friends but they'd never believe me,
They'd think that I'd finally lost it completely.
I'd show them the stars and the meaning of life.
They'd shut me away.
But I'd be alright, alright,
I'd be alright,
I'm alright
Nunca vira nada assim. De um momento para o outro o seu corpo incendiou-se. Em poucos segundos a senhora Reeser desapareceu. O seu deslumbrante quarto permaneceu incólume. Nada em seu torno ardeu. O seu crânio encolheu e pouco mais sobrou para ser testado.
O pânico instalou-se e os críticos apareceram. Estava em causa muito mais que a vossa sobrevivência . A imprensa ataca fortemente o regime e este certamente vai-se retrair.
No século XX houve alguns casos assim. Este continua a ser um dossier aberto na ciência.
Lamentavelmente, os casos têm aumentado um pouco por todo o lado. Há relatos de situações dramáticas na via pública.
O pior disto tudo é a velocidade em que ocorre. Ninguém escapa. Certo é que não é um virús e não se transmite. A relação entre as vítimas não existe.
Creio ser um dano colateral acelerado. Algo não está bem equacionado e pela cidade vão-se amontoando cinzas. Muitos já passam por cima destas sem olhar. Tornou-se banal.
Entretanto os cientistas procuram uma solução. Orthoptera é o unico caso de sucesso.
Edo (antiga Tóquio) sempre foi uma metrópole que me fascinou. A sua propensão tecnológica, num misto de cultura samurai-pop, sempre atraiu imensa população e não é à toa que esta é a cidade (país) com mais gente no mundo inteiro.
Quatrocentos anos depois da mudança de sistema político decidi visitá-la, afinal de contas foi aqui que pela última vez estive com Orthoptera.
Muita coisa mudou desde essa vez e a outrora fria e calculista Tóquio deu lugar a um espaço tremendamente humano e repleto de simbolismo. Os prédios, cada vez mais gigantes, assemelham-se a gigantescos CPUs. A sua transparência, vista do interior, é algo demasiado exorbitante e extravagante, mesmo para um homem do ano 3000. A cidade voyeur estava instalada.
Mas se por dentro o mundo está aberto como uma TV, de fora só vemos os milhões de anúncios vivos que cobrem os edifícios - como se de um gigantesco monitor LCD se tratasse.
Para além disso, estes novos materiais são auto-sustentáveis em termos energéticos. Não só absorvem a energia solar, como a eólica e ainda reciclam os passos individuais dos passeios públicos circundantes, transformando o movimento em calor e este em energia.
Todos os elementos poluídores são também transformados em combustível - apesar de cada vez mais haver menos para "queimar" (uma situação que faz lembrar o fatídico século XXII, o último da velha era).
Foi no Hotel Okura Garden Terrace que encontrei o que me levara aqui. Como esperava, uma caixa estava escondida no 1º andar- junto à galeria Horyuji- e nela podia estar a resposta a tudo o que se passou.
Afastei-me de todos e isolei-me no quarto que tinha requerido. Começava entretanto a sentir pequenas dores de cabeça que me avisavam que necessitava urgentemente de E-338, um acidificante, que em conjunto com python 1502Z, ajudava a suprimir o meu vício involuntário.
As marcas do passado em Mogadishu estavam latentes no meu corpo. Tentei-me controlar e abrir a caixa. Não esperava encontrar nada daquilo que lá estava...
Aidid morre no hospital após ter sido baleado em combate. Num subúrbio da Capital, sinto que alguém me segue.
Estava ali em mais uma missão, imposta por Emil, o nosso comandante e resistente checo -que herdara o seu nome a partir do incansável corredor do século XX.
Estou cansado, suado, sujo. Nunca gostei destes climas e a condição humana que aqui se vive é execrável. Lixo, destruição, corpos tombados por todas as ruas e crianças que só conhecem o chorar.
Esta é a cidade das interrupções. Se há um momento de terrível silêncio é de estranhar.
A missão está completa. Evitei um mal maior e agora o futuro de Treblisi está nas mãos do seu fundador; Nizar. Não me sinto, contudo, completamente satisfeito. Não gosto do que fiz e isso deixa-me desconfortável.
Continuo a achar que estou a ser seguido. Olho em volta e nada. Ninguém, apenas eu e um imenso deserto de ruídos.
Espero que me venham buscar, tenho saudades de Orthoptera.
Não tenho nome, idade, profissão. Não sou homem, nem mulher e muito menos uma inteligência artificial. Não me corre o sangue nas veias, nem as tenho. Não respiro, não tenho pulmões.
O meu código genético foge à regra humana e não sou mais um ser do espaço. Não tenho sangue aliás, nem células, nem nada. A razão é muito simples. Ainda não nasci.
Poderia contar a minha história do início mas o rótulo de louco certamente me perseguiria. Isso é talvez a minha única conquista. Uma marca, um nome. O louco.
Como qualquer louco, sou um homem fora do meu tempo. O meu futuro é o vosso passado.
Mas vamos ao que interessa… dag för dag